sobre a possibilidade de uma crítica de arquitectura para além da relação de um arquitecto-leitor com as obras versadas


[Esplanada dos Ministérios em Construção, Marcel Gautherot, Brasília, 1958]

O lugar do arquitecto óscar niemeyer é cada dia mais no brasil
Óscar niemeyer é ave de arribação veste colorida plumagem dos trópicos
tem grandes asas que excedem a racionada raciocinada superfície da europa
só sabe verdadeiramente voar sobre as ilimitadas areias do maranhão
onde convivem o vento vigorosas mulheres virgens passos de pássaros
onde a norte começa o próprio espaço da imaginação
Óscar niemeyer levanta no solo gretado da europa o seu tronco baixo
esmaga tímidos braços de árvore contra o atarracado pé-direito das nossas salas
desfralda no território do rosto um sorriso baixo e cansado
O arquiarquitecto só deixa que o cubra o tecto sem sombras da beleza
não lhe é possível pensar sem a grandeza há uns nove anos comprimida no brasil
país onde hoje recusa rasgar palácios para albergar talvez organismos de uma nova inquisição
onde actualmente lhe sonegam o espaço exigido por esse traço
nascido de um gesto desaparecido com o movimento das mãos dos artistas do renascimento
só agora finalmente talvez prolongando nas longas arcadas
nas arcadas criadoras de som como as arcadas cheias de inumeráveis escadas
subtilmente subidas às vezes pelas notas libertas dos versos do poeta camilo pessanha
arcadas por exemplo visíveis nos edifícios das edições mondadori de Milão
ou do ministério dos negócios estrangeiros da cidade de argel
O homem de fala medida e breve que faz falar o betão e o fez articular o nome brasília
num céu que outrora apenas cobria um silêncio de selva e sertão
devolve a este velho e revelho continente volvidos já quatro séculos e meio
o vulto nevoento e procriador do navegador pedro álvares cabral
e diz em oxford ou em paris a mesma primeira missa desse dia distante de santa cruz
na mesma voz inocente da palavra paz agora através das cordas vocais da arte
No seu grande atelier dos campos elíseos de paris a palavra que faz
desabrochar a flor de nenúfar de um casino à beira mar da madeira
nascer livre como uma ideia na forma de aldeia a universidade de constantina
tocar essas autênticas teclas de piano que são os ovóides alvéolos das casas para estudantes de oxford
soltar ao vento a fita de vidro e aço que esvoaça no bairro de la villette de paris
descer das verdes vertentes de uma colina de dieppe duas mil variadas habitações
florir no havre uma febril flor ardendo na corola das suas dez pétalas
Nas mãos de niemeyer nasce o silêncio do núcleo central sossegado de certas cidades
que dilatam os dias fortificados e relvados da idade média
cercados agora somente de casas geminadas e blocos de apartamentos abertos em leque
Aquela mão criadora de coisas como a alegria actualmente já não criaria
brasília beleza para privilegiados beleza pela beleza terrenos coutados
paredes sem amplas janelas rasgadas na vida dos deserdados
Niemeyer mudou de nome e chama-se agora somente arquitectura
arte arejada palavra de betão proferida dos telhados mais altos da idade futura


[Óscar Niemeyer, Ruy Belo]




[Ibirapuera, Óscar Niemeyer, São Paulo, 1951]


[Casino da Madeira, Óscar Niemeyer, Funchal, 1966]


[Mondadori, Óscar Niemeyer, Milão, 1968]


[Universidade de Constantine, Óscar Niemeyer, Argel, 1969]